ACORDEI SEM AR . DENOVO
Dessa vez o sonho foi bom . Eu flutuava no meio do nada . Não existia nada , nada pra se ver , nenhum som , nenhum pensamento . E , o que fez esse sonho se tornar maravilhoso , nenhum sentimento .
Depois do que pareceram horas de torpor , o sonho acabou . E naquele momento entre dormir e acordar , antes mesmo de abrir os olhos veio o nome dele . Meu primeiro pensamento.
“ Rocket Man”
- Droga ! - Acordar passou a ser , incrivelmente , doloroso.
Mais um dia . Era só mais um dia . Eu tinha que continuar respirando , mesmo com falta de ar . Meu coração tinha que continuar batendo , mesmo que batesse tão forte e tão rápido que eu pensava que , a qualquer momento , ele pararia . Eu tinha que me alimentar , mesmo que a comida não passasse da garganta que parecia tão obstruída por algo que não estava realmente ali .
Na cozinha , a louça transbordava na pia . Suspirei desanimada , mas não consegui ficar nervosa . Sempre achei isso engraçado.
Gê , meu pai , tinha o dom da bagunça . Nunca entendi como ele conseguia sujar três pratos , duas frigideiras , quatro garfos e uma colher só pra fritar um ovo e esquentar o “arroz de ontem” .
Corajosamente , comecei a limpeza . E , entre pratos , garfos e sabão , os pensamentos vieram . Como era difícil não pensar nele !
“Rocket Man , Rocket Man , Rocket Man”
Lembrei de quando o conheci , no bar Cambridge . A garçonete me entregou um post-it . Palavras tão bonitas ! Tão poético !
Assinado, Mr. Rocket Man . Fiquei encantada .
Um amigo , Emmy , que sentava ao meu lado , me arrastou pra fora da mesa .
- Você tem que conhecê-lo ! Ele vale a pena . O nome dele é Rocket Man . Nunca o vi tomar a iniciativa com nenhuma mulher . Sempre muito tímido .
A situação deixou Emmy mais curioso do que eu . Nem tive tempo de pensar se queria ou não conhecer o misterioso autor daquele bilhete. Enquanto era arrastada a uma velocidade um pouco desafiadora para meu salto agulha , olhava para a pequena multidão do Cambridge. O bar em que a classe artística de São Paulo se encontrava toda segunda-feira , estava repleto de amigos e colegas de trabalho . Tentei em vão olhar para as pessoas que eu não conhecia . Todos embaçados , sem foco. Mesmo se eu não fosse míope , como eu iria reconhecer um rosto que eu nunca havia visto na vida ? Me achei uma idiota por tentar .
Em poucos segundos já estávamos à mesa dele . Ele se levantou , nervoso e tímido.
- Oi Rock ! – disse Emmy numa empolgação sem sentido . – Quero te apresentar minha amiga . Essa é Psique . Cantora . Canta pra caralho. Quando essa branquela de olho azul abre a boca a gente entende que tem uma “negona” dentro dela . Acho que ela engoliu uma amiguinha negra e gorda na escola quando era criança . É a única explicação que consigo aceitar.
Enquanto Emmy fazia mais piadinhas desnecessárias e sem sentido eu olhava nos olhos desse tal Mr. Rocket Man . Rock , para os mais íntimos . Eram verdes e gentis .
Sentindo muita vergonha com a apresentação insana que meu amigo nada sutil fizera , consegui dizer um “oi” num sorriso tímido de quem pede desculpas por ter nascido.
- Psique , esse é o Rock . Puta diretor ...... – resolvi ignorar Emmy . Meu cupido era muito exagerado . Por mais que estivesse grata , queria que ele fosse embora .
E não vi Emmy ir embora . Também não vi quando aquele estranho , alto , de olhos verdes gentis , pegou minha mão .
Repentinamente me vi de dedos entrelaçados ,os meus brancos nos dele pardos e grandes , conversando com um estranho.
Nos três anos seguintes , minha mão continuou na dele.
Tão apaixonado ! Tão apaixonante ! Tão diferente de agora !
Como é possível ainda amar alguém que deixou de te dar valor ? Que tenha se tornado tão egoísta ?
Três anos maravilhosos seguidos por três anos de mágoas e ilusões perdidas . Três anos me sentindo uma deusa seguidos por três anos me sentindo uma idiota .E eu ainda o amando incondicionalmente.
Fiquei cega devido às lágrimas indesejáveis . Fechei a torneira da pia ainda sem conseguir controlar o choro . Com as duas palmas das mãos no rosto , respirei fundo algumas vezes , tentando me acalmar , tentando cessar a água quente e amarga que jorrava , sem permissão , dos meus olhos . Como eu queria poder fechar essa torneira também ! Pra sempre .
Com os dedos , sequei as lágrimas. No lado direito do meu rosto senti algo quente . Eu lavei a louça com água quente? Nesse calor? Olhei para a pia . Ainda cheia de panelas sujas . Droga ! Uma pontada no meu dedo indicador me fez entender . Como foi que eu cortei o dedo?
O celular tocou , me fazendo pular . Tanto tempo em silêncio !
Era o toque dele , a música dele , Rocket Man , do Elton John. Não atendi . Eu tinha que ser forte . Meu peito ficou pesado e dolorido , parei de respirar , minha cabeça girou, minhas mãos tremiam . Ainda assim era bom ouvir aquele toque . Era ele me ligando . Por mais que eu não atendesse , eu sentia um certo alívio quando ele me ligava. Ele ainda estava ali . Ele ainda existia .
O celular parou de tocar ; e as lágrimas voltaram.
“Seja forte” , eu pensei , “calma , respire . Você tomou a decisão certa . Você já suportou coisa demais”
Meu rosto quente denovo. Meu dedo não ia parar de sangrar ?
No banheiro , o band-aid resolveu o problema . Achei melhor lavar o rosto . Eu o sentia seco e sujo. A imagem no espelho me fez dar dois passos pra trás . Meus olhos míopes viram um rosto sem foco , com olheiras profundas e arroxeadas . O lado direito enxangue . Tentei lembrar quando foi a última vez que lavei o cabelo . Há três dias?
Depois do banho voltei à louça .Ainda com olheiras , mas sem sangue e com o cabelo limpo .
Tentando pensar em qualquer coisa , menos nele , ocupei minha mente com as letras das músicas que cantaria no show de Sexta-Feira no bar Vermont . Péssima idéia. Por que a maioria das músicas falam sobre amor?
Liguei o rádio na Band News FM . Música não era uma boa distração. O repórter falava sobre a novidade do momento .
“Os atores Kristen Stewart e Taylor Lautner virão ao Brasil para divulgação do novo filme da saga Crepúsculo . A autora dos best-sellers mais aclamados dos últimos anos se diz surpresa com a quantidade de fãs no Brasil e promete que o segundo filme da saga , Lua Nova ,é mais fiel ao livro .......”
A notícia não conseguiu prender minha atenção , pensei na minha consulta ao médico . Terça-Feira , dia 17 às 14:00 .
É amanhã , preciso ligar pra confirmar , pensei .
Comecei a me imaginar chegando no consultório médico e encontrando o Rock . Segurando um buquê de flores , dizendo que me queria de volta . Que entendeu que estava sendo um idiota , mas que agora estava pronto pra me fazer feliz . Iria lutar por mim . Me reconquistar e fazer eu me sentir deusa denovo.
“Eu te amo , gatinha . Você é meu milagre . Eu simplesmente não consigo viver sem você .” , diria ele . Então me beijaria apaixonadamente .
As lágrimas me fizeram voltar à realidade , mas me distraí com a notícia que ouvia agora no rádio da cozinha .
“.....consideram que há uma possibilidade enorme de o desabamento do viaduto no quilômetro 279 da rodovia Régis Bittencourt ter sido causado por uma decisão equivocada da empreiteira no momento de instalação das vigas de sustentação da estrutura ....”
Pensar numa catástrofe ou acidente era melhor que pensar nele.
A fome não vinha nunca , mas me forcei a comer algo afim de evitar uma dor de estômago excruciante. Em breve , o médico iria me explicar porque doía tanto quando eu ficava mais de duas horas sem comer.
Pensei no meu Rocket Man denovo , com as flores nas mãos . E fui pro quarto irritada comigo mesma por pensar tanto nele .
Será que ele vai me ligar amanhã?
Deitei na cama , meu livro preferido em mãos . A luz do dia ainda entrava pela minha janela , mas comecei a ler o livro na esperança de adormecer em breve .
E nunca mais acordar .